• Museu MUCAI

BLOCO 2/P1- Contos afro-brasileiros: memória e tradição oral africana

Atualizado: 9 de Jun de 2018

*Período: 17/06 a 23/06/2018


"Os mitos apontam, sobretudo, para os valores e os princípios capazes de garantir orientação para o melhor caminho da existência social, das relações humanas e soluções de problemas. Os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano. Considerando, deste modo, os mesmos poderes que animam a nossa vida, animam a vida do mundo" (MACHADO, 2002, p. 122)*

As narrativas africanas trabalhadas no MUCAI têm como base a tradição oral. Os sons emitidos pela oralidade difundem valores relacionados ao universo literário e também religioso. Os contos afro-brasileiros ilustram situações cotidianas que foram ensinadas por meio da sabedoria dos mais velhos. As histórias envolvem personagens como divindades, seres humanos e animais.



Em algumas civilizações africanas, as crianças aprendem ensinamentos e valores mundanos antes mesmo de ingressarem nos espaços escolares.



*MACHADO, VANDA. Mitos afro-brasileiros e vivências educacionais. IN: SECULT. Lei n°10.639/03: caderno de textos do professor. Salvador: Smec, 2005.



NO FINAL, COMO OS ORIXÁS VIERAM PARA O BRASIL (Reginaldo Prandi)


Muito tempo depois dos acontecimentos aqui narrados, milhares de africanos que conheciam todas essas histórias foram caçados e trazidos para o Brasil, onde foram escravizados. Aqui em nosso país, os africanos trabalhavam para o senhor branco, plantando, colhendo e moendo a cana-de-açúcar, fabricando o açúcar, a riqueza do Brasil, lavrando as minas de ouro, prata e diamante, criando tudo o que era mercadoria de valor, cuidando das casas do senhor branco e de seus filhos, fazendo todo e qualquer serviço necessário. Os escravos trabalhavam sem ganhar nada, sofrendo os mais temíveis castigos físicos, nada podendo ter de seu, nem casa nem roupa nem nada, nem mesmo uma família. Mas eles nunca se esqueceram dessas histórias e nem de seus personagens, que são os deuses orixás. Não se esqueceram de Ifá, o Adivinho, que também é chamado Orunmilá, nem de Exu, o Mensageiro, nem se esqueceram de Xangô, o Trovão, nem de suas três esposas: Obá, a Prestimosa, a rainha cozinheira, Oxum, a Bela, a dona da beleza e do ouro, E Iansã, a Destemida, a senhora das tempestades. Eles ainda se lembravam de Ogum, o Ferreiro, que abre os caminhos, E de Oxóssi, o Caçador do Povo. Não se esqueceram de Euá, a Misteriosa, a que engana a Morte, nem dos gêmeos Ibejis, os orixás da infância, que também ludibriaram a Morte. Lembravam de Erinlé, o Caçador de Elefantes, e de seu filho Logum Edé, ao mesmo tempo caçador e pescador. Claro que não se esqueceram da Morte, a quem os africanos iorubás chamam de Icu. E ainda falavam de muitos outros orixás, cujas histórias precisamos conhecer um dia: Orixá Ocô, o Agricultor, e Ossaim, o Herborista, que detém o poder curativo das plantas. Nanã, a Lama, que é a senhora do fundo dos lagos e que é a mãe de dois filhos muito lembrados, Omulu, a Peste, que cura muitas doenças, o médico dos pobres, E Oxumarê, o Arco-Íris, que controla a chuva. Não se esqueceram de Iemanjá, o Mar, nossa grande mãe. Ainda lembravam de Iroco, a Árvore. Ainda contavam de Oquê, que virou Montanha. Também falavam de outros orixás cujas histórias vamos igualmente aprender um dia. Oxaguiã, o Papa-Purê de Inhame, que inventou o pilão, Odudua, O Criador do Mundo, que criou a Terra, Oxalá, o Grande Pai, que criou o ser humano. Os escravos negros contavam essas histórias para seus filhos, que contavam para seus netos, que contavam para os que nasciam depois deles e assim por diante. Mesmo depois do ano de 1888, data em que a princesa Isabel, a Redentora, libertou os escravos, quando não mais existia escravidão no Brasil e os negros já eram livres, eles continuaram contanto as histórias dos orixás. Eles faziam festas para lembrar essas histórias, dançavam e cantavam em homenagem aos seus heróis e às suas heroínas, dançavam e cantavam em homenagem aos orixás, pedindo-lhes que dessem saúde, paz, prosperidade, amor e tudo aquilo que faz da vida de um ser humano uma aventura boa de se viver. Pediam aos orixás que afastassem de sua vida tudo o que é ruim: a doença, a inveja, o desemprego, a perseguição, o roubo, a fome, a inimizade, a falta de dinheiro e de amor e carinho, a ingratidão, a falta de uma família, a discórdia, a violência, a escravidão, a guerra... O mal, enfim. Rezavam aos orixás para que os livrassem da Morte. Para homenagear com canto e dança os antigos africanos que viveram essas histórias, os negros se reuniam em casas e barracões, que passaram a ser chamados candomblés. No começo, só os negros iam às festas dos orixás nos candomblés, mas depois os brancos também passaram a ir. Os brancos conheceram as histórias e também começaram a amar os orixás, os deuses dos povos que na África são chamados iorubás, deuses que depois também ganharam a cidadania brasileira. Hoje em dia, muita gente vai ao candomblé louvar os orixás e fazer consultas, conhecer as adivinhações de Ifá, o Adivinho. Muitos brasileiros aprenderam a jogar o jogo de búzios de Ifá. Eles, que são chamados pais de santo e mães de santo, Aprenderam as histórias dos orixás E sabem como fazer o jogo da adivinhação. Leem o futuro, desvendam os enigmas da vida e ensinam como enganar a Morte. Eles são continuadores da obra de Ifá, o Adivinho. É assim que Ifá, o Adivinho, vive entre nós, sempre disposto a ensinar à humanidade como enganar, mais uma vez, a Morte.



Fonte: PRANDI, Reginaldo. Ifá, o adivinho: histórias dos deuses africanos que vieram para o Brasil com os escravos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002.


Ainda não temos a versão deste itan em áudio: quer ser um voluntário(a)? envie a sua gravação para museuafricaqui@gmail.com


Atividade 01: Explorando o conto “No final, como os Orixás vieram para o Brasil”


1 – Realize a leitura do conto “No final, como os Orixás vieram para o Brasil”, do autor Reginaldo Prandi;

2 – Escolha um dos personagens (as divindades, os orixás) apresentados na história;

3 – Pesquise as cores e os arquétipos da divindade escolhida e eleja um símbolo da natureza associado ao Orixá selecionado;

4 – Confeccione uma arte visual (desenho/pintura/recorte e colagem) envolvendo as cores e os fenômenos da natureza associados ao Orixá selecionado;

5 – Crie uma frase para apresentar sua produção artística

6 – Utilize um aparelho (celular/máquina fotográfica) para capturar uma foto da sua criação artística e publique-a no campo de comentários.

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